A ilusão da cura
por que parei de buscar consertar o autismo e foquei na autonomia
Alan Ochotorena
4/15/20262 min read


Quando recebemos um laudo de autismo, é instintivo que o nosso desespero de pai ou mãe grite uma única palavra: resolver. Queremos consertar o que a sociedade nos diz que está "quebrado". Eu também passei por essa fase. Mas a verdade nua e crua, que aprendi na linha de frente criando o Levi, é que o autismo não é uma doença a ser erradicada. Ele é o sistema operacional da mente do seu filho.
O mercado paralelo lucra horrores vendendo a ilusão da cura. Dietas mágicas, protocolos milagrosos e terapias focadas apenas em "mascarar" sintomas têm um custo altíssimo: elas colocam você em guerra contra a essência do seu próprio filho.
A mudança de chave: de bombeiro a gestor
A minha virada de chave definitiva aconteceu quando a puberdade bateu à porta. O menino que eu pegava no colo para conter uma crise virou um adolescente com a minha altura, e o meu antigo manual de contenção física simplesmente perdeu a validade. Ali, no meio do caos, percebi que amar o meu filho incondicionalmente era o combustível para eu não desistir, mas o amor, sozinho, não era a ferramenta para resolver o problema.
Eu parei de tentar "consertar" o Levi e comecei a desenhar mapas estratégicos para que nós dois pudéssemos sobreviver ao território desconhecido da adolescência. Troquei a busca por milagres pela engenharia de rotina.
O que significa focar na autonomia?
Abandonar a busca pela cura não é jogar a toalha. É canalizar a energia para o que realmente gera impacto. O objetivo passa a ser a Redução de Danos e a Construção de Autonomia. Na prática, isso significa:
Aceitar a biologia: Parar de forçar o filho a suportar ambientes sensorialmente caóticos apenas para cumprir uma convenção social ou de etiqueta.
Prevenção tática: Compreender que a crise não acontece no vácuo; ela tem hora, lugar e gatilho. O papel do pai é gerenciar o ambiente antes da explosão acontecer.
Passos tediosos, resultados reais: A independência não ocorre em saltos milagrosos, mas em pequenos acordos diários, como o horário de desligar o Wi-Fi ou a tolerância ao negociar uma regra.
O objetivo nunca deve ser transformar o seu filho em outra pessoa, mas oferecer ferramentas táticas para que a família inteira sofra menos e funcione melhor. Nós buscamos progresso, não perfeição.


