O luto do manual antigo

Por que o autismo parece "piorar" na adolescência?

Alan Ochotorena

5/4/20263 min read

white concrete building
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Provavelmente você se lembra da época em que os desafios do autismo do seu filho tinham um peso que você conseguia carregar nos braços. Se ocorresse uma crise no supermercado ou uma travada na porta da escola, o seu colo resolvia. A contenção física estabelecia limites seguros. Era exaustivo, sim, mas era um manual que você conhecia e dominava.

Então, a puberdade chegou.

A voz engrossou. A força física se igualou ou superou a sua. O choro virou um grito grave, e a recusa virou uma barreira intransponível. De repente, as táticas que funcionavam aos 7 anos falham miseravelmente aos 14. E a pergunta que assombra muitos pais no silêncio da noite é: "O autismo dele piorou?"

A resposta curta e direta é: Não. O autismo não piorou. O que aconteceu foi que o seu filho atualizou o sistema operacional, mas você continua tentando rodar os programas antigos.

A Ilusão da Piora

Na infância, o ambiente é altamente controlado. As decisões são centralizadas e as escolhas são feitas pelos pais. O mundo exige pouco da criança além de brincar e aprender o básico.

Na adolescência, a complexidade social explode. Entram em cena os hormônios, as regras abstratas de convivência, a pressão escolar, a busca por identidade e os códigos implícitos que ninguém ensina. O cérebro neurodivergente entra em sobrecarga muito mais rápido porque as variáveis se multiplicaram.

Quando o adolescente explode, bate portas ou se isola completamente, ele não está regredindo. Ele está usando as ferramentas (limitadas) que possui para tentar dar conta de uma sobrecarga sensorial e social absurda. O caos que você vê por fora é apenas o reflexo de um sistema interno operando no limite.

Atualizando o Sistema: Do "Windows Infância" para o "Windows Adolescência"

Para sobreviver a essa fase sem destruir a sanidade da família, o pai ou a mãe precisa passar por um luto necessário: o luto do manual antigo. A tutela e a supervisão constante precisam dar lugar à gestão e ao planejamento estratégico de rotina.

Enquanto você tentar controlar um adolescente de 1,80m com as mesmas ordens abstratas que dava a uma criança, você só colherá conflito. É preciso desinstalar o "Windows Infância" e instalar o "Windows Adolescência".

Na prática, isso significa que:

  • A contenção física perde espaço para a negociação de regras discutidas e acordadas.

  • A resolução de crises imediatas (o famoso "apagar incêndios") deve ser substituída pelo mapeamento e prevenção de riscos (redução de danos).

  • O cuidado baseado apenas em escolhas feitas pelos pais deve evoluir para o ensino focado na construção de autonomia e autossuficiência.

O amor, sozinho, não resolve

Dizer que "é só dar amor que tudo se ajeita" é uma meia-verdade cruel. O amor como única ferramenta serviu como base na infância. Mas o amor não ensina um adolescente autista a pegar um Uber, a regular a própria ansiedade ou a usar a lógica para se defender de bullying.

O amor faz você não desistir. O que faz o seu filho funcionar e ganhar o mundo é o amor aliado à estratégia tática e a processos práticos.

O manual antigo expirou. É hora de escrever um novo.

A sua casa precisa de um CEO, não de um bombeiro.

Se o manual da infância parou de funcionar e você está exausto de apenas apagar incêndios todos os dias, chegou a hora de mudar a estratégia.

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Logo Alan Ochotorena Mentor e Palestrante. Letra A estilizada em hexágono e setas de progresso.
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